O Menino que Engoliu uma Máquina de Beijinhos




São doze anos já, embora eu possa jurar que foi quase ontem.
Vou repetir as palavras que já escrevi, que são de memórias que não quero esquecer.

"São 11 e qualquer coisa da noite e dói-me a barriga. Está-me a doer desde o final da tarde mas tem vindo a piorar, que diabo, mania de comer demais ao almoço, alarvice, felizmente resisti à morcela, de outra forma não estaria senão morta.

Melhor pensar que vou passar a noite na casa de banho, só me falta vomitar, desculpem os pormenores sórdidos, mas é mesmo isto, estou super maldisposta.

Já deitei o pequeno há um tempo, deixa-me cá espreitá-lo, isto é que é dormir, que inveja, também já me deitava e já dormia como um bebé, mas não, a coisa tem tendência a piorar, com a agravante que estou a ficar com imenso frio pelo que o melhor é mesmo desistir da água das pedras e enrolar-me numa manta. A sanita e eu. Que imagem gloriosa.

Ocorre-me então que estou com 38 semanas de gravidez e que provavelmente vou parir. Sim, é possível confundir trabalho de parto com uma cólica intestinal,  renal ou o que quer que seja mesmo depois de já ter parido uma vez, por isso jamais voltarei a gargalhar daquelas senhoras do canal de coisas estranhas que têm filhos sem nunca terem percebido que estão grávidas.

Deuses do Universo, vou mesmo parir. Medo. Por favor vai-me buscar aquele livro para grávidas. Pois diz aqui: vómitos e coiso e tal podem ser sinais de trabalho de parto. Já é meia noite. Chama uma porcaria de uma ambulância. 112. 1-1-2. Chama lá. Deixa, eu ligo. Olá olá, estou morta de dores e estou grávida de 38 semanas. Pois. Provavelmente vai nascer. Não, não rebentaram águas. Não, não estou bem disposta. Dez minutos. Não me toquem à campainha que me acordam o bebé. Não, o outro, que já nasceu há três anos. Não, eu desço, não se incomodem. Pelo menos leva-me a mala até lá abaixo e pára de olhar para mim como se me estivessem a nascer antenas.

 Peso, idade, blá blá, diabetes, e porem-se a andar, não? Também nao é preciso assim tanta pressa, especialmente nesta porcaria de estrada de paralelos que estou com contrações e vocês não estão a ajudar nada. Chegámos, esta senhora tem umas unhas gigantes pintadas de vermelho e diz que me vai fazer "o toque". Não sei porque diabo me meti nisto, olhe afinal enganei-me, chame-me um táxi que vou para casa, vá lá continuar a sua soneca, não se apoquente, eu fico bem. De nada.

Cá estou na sala de partos, não, não há pai, quer dizer há mas não está, chamem lá a senhora da epidural antes que se faça tarde, ai é esta? Que bom, vamos lá então, ai não consegue? Bonito. Tentamos outra e outra vez e não há cá epidural para ninguém, e nunca tive tanto frio nos dias da minha vida e raios partam o dia em que pensei ter outro filho, nunca mais me apanham noutra. Pronto, agora já não vale a pena ires chamar a outra senhora, já cá está o puto, dêem-mo cá  para eu olhar para ele e desamparem-me a loja.

Finalmente. És tão lindo, cheiro-te tanto, tão pequenino, sou só eu e tu e já passa das três da madrugada. Eu não sabia mas fazias-nos falta. Fazia-nos falta a tua doçura, os teus mimos, o colo que nos pedes e o (ainda mais) felizes que nos fazes.

Hoje que fazes 7 anos, quero que saibas que um dia  te vou escrever uma longa carta de Amor, quem sabe um livro. E fica também a saber que se irá chamar "O Menino que Engoliu uma Máquina de Beijinhos."
Feliz Aniversário,

Mãe"

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